Quando todos simplificam, fazer à mão torna-se uma afirmação

Nos últimos anos, muitas identidades visuais parecem ter seguido o mesmo caminho: menos detalhe, menos ruído, menos personalidade. No futebol, isso tornou-se especialmente visível. Emblemas históricos são redesenhados, simplificados e adaptados a sistemas digitais cada vez mais exigentes, onde tudo precisa de funcionar num ecrã pequeno, numa aplicação, numa camisola ou numa publicação de Instagram.

Há razões práticas para isso. Mas há também uma consequência: muitas vezes, as marcas começam a aproximar-se demasiado umas das outras.

É neste contexto que o emblema do Atlético Dallas Football Club ganha interesse. Em vez de procurar uma construção excessivamente polida, o símbolo foi pintado à mão. Uma escolha que, à partida, pode parecer apenas estética, mas que diz muito sobre a forma como uma identidade pode ser construída hoje.

Pintar à mão significa aceitar aquilo que o digital normalmente tenta corrigir. O traço não é completamente regular. A tinta tem textura. As formas não são matematicamente perfeitas. Há pequenas diferenças que surgem naturalmente do gesto e que dificilmente seriam planeadas numa grelha.

É precisamente aí que aparece o carácter.

Durante muito tempo, estas irregularidades foram vistas como algo a eliminar. O processo digital trouxe-nos ferramentas capazes de corrigir praticamente tudo: alinhar, suavizar, equilibrar, repetir. Hoje, conseguimos chegar a uma forma tecnicamente perfeita em poucos minutos. E talvez seja por isso que aquilo que é imperfeito começa novamente a parecer especial.

Não porque o trabalho manual seja melhor por definição, mas porque deixa vestígios de quem o fez.

No emblema do Atlético Dallas, conseguimos sentir que existiu um processo antes do resultado final. Existiu uma mão, uma decisão, um movimento. A identidade não parece apenas construída; parece feita.

E essa diferença é relevante num momento em que a tecnologia torna cada vez mais fácil produzir imagens impecáveis, rápidas e infinitamente replicáveis. Quanto mais perfeita se torna a produção, maior pode ser o valor daquilo que apresenta pequenas diferenças, acidentes ou sinais de intervenção humana.

No futebol, onde os clubes carregam histórias, comunidades e sentimentos que dificilmente são perfeitos ou uniformes, talvez esta abordagem faça ainda mais sentido. Um emblema não precisa apenas de funcionar. Precisa de criar pertença.

Fazer diferente não significa necessariamente inventar uma linguagem completamente nova. Às vezes, significa questionar aquilo que se tornou automático.

E, num mundo onde quase tudo começa num ecrã, começar com um pincel pode ser uma ideia bastante contemporânea.